22 Mai 2020

Inteligência Coletiva em tempos de pandemia

Diante do atual cenário altamente delicado e crítico em que o mundo vive, após a instalação do estado de pandemia pelo coronavírus, torna-se clarividente os fatos preocupantes que assolam a sociedade tais como: óbitos decorrentes da infecção pelo covid-19, incapacidade de absorção das demandas pelos aparatos de saúde pública e privada, estagnação de uma multiplicidade de atividades laborais, econômicas, acadêmicas, etc.

Como previsto, em decorrência da estagnação de setores que movimentam o mercado mundial, instalam-se no âmbito sociopolítico discussões acaloradas sobre as possíveis consequências na economia global em virtude do cenário que estamos vivenciando, claro, além do mais importante que é a perda de muitas vidas como já citado. Eis um breve resumo (pois não cabe aqui entrar em maiores detalhes) do horizonte que percebemos há algumas semanas. No entanto, felizmente, faz-se mister entreluzir em nosso diálogo algo que penso ser uma evolução e sinal de amadurecimento no âmbito social diante do contexto já brevemente esboçado. Refiro-me neste momento à ideia de “Inteligência Coletiva”, conceito que tem como principal percursor o filósofo tunisiano naturalizado francês Pierre Lévy, que de maneira prodigiosa, no final dos anos 90 e início dos anos 2000, discutiu a temática com a devida maestria que lhe é peculiar.

Pierre Lévy é considerado um dos principais pensadores mundiais quando o assunto é desenvolvimento humano e o fenômeno da internet.

A Inteligência Coletiva, como colocado por Lévy (2003, p. 28 apud BEMBEM e SANTOS 2013), trata-se de “(...) uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências”.

Com as múltiplas iniciativas, percebidas por todos, relacionadas à solidariedade das pessoas de todas as classes, formações, profissões e saberes se dispondo ao compartilhamento de seus conhecimentos em favor do outro (em muitos casos de forma voluntária) a fim de contribuir com o bem-estar das pessoas, é seguro dizer que estamos, talvez de forma nunca vista antes, em um momento ímpar de fortalecimento da Inteligência Coletiva, inclusive, vale lembrar que o principal veículo utilizado para propagação, troca e aquisição das informações é a internet, o que outrora denominamos como ciberespaço, ambiente, por excelência, utilizado para veiculação do conhecimento e cristalização da(s) rede(s) de Inteligência Coletiva.

O termo “coletivo” não pressupõe desconsiderar a importância da cognição individual, da valorização da inteligência de cada indivíduo, no entanto, faz-se necessário, por parte de cada um, a abertura ao outro, o acesso àquele que possivelmente não conheço, sem, todavia, que o pessoal se perca na tentativa de coexistir no ambiente colaborativo e transfronteiriço que a internet nos possibilita. O objetivo neste caso é somar forças por meio da troca de experiências intentando, especialmente no atual contexto, construir soluções em rede para os intricados desafios que estamos vivenciando.

A mobilização das competências individuais para apoio ao próximo, numa dinâmica positiva e propositiva, neste momento de pandemia, configura-se como um grande passo que podemos dar, e alimenta a esperança de que chegaremos juntos e mais fortalecidos ao final dessa estrada que tem se mostrado sinuosa e por vez, desafiadora.

Manter-se em equilíbrio, atualizado e sintonizado com a comunidade, por meio de fontes seguras de informação, torna-se uma condição sine qua non para que possamos tomar as melhores decisões, oferecer ajuda e recebê-las também, contribuindo com o que há de mais nobre para o fortalecimento das nossas redes de “ Inteligência Coletiva” – com tudo que nos é possível dispor em favor do outro, do coletivo e como consequência, inevitavelmente, em benefício próprio pois, como diz um belo provérbio chinês: “Um pouco de perfume sempre fica nas mãos de quem oferece flores”.

Por Marcos Gleiser
Especialista – Observatório das Juventudes PUCPR